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Do Fundo da Garganta

Ainda bastante comum, a amigdalite e uma doença infecciosa que pode ser confundida com outros males semelhantes.
Saber diferenciá-la ajuda a iniciar o tratamento mais rapidamente, evitando complicações e Cirurgia

por Leonardo Vinhas para a Revista VivaSaúde

Imagem retirada do banco de imagens

Em tempos de novas doenças virais, é importante não perder de vista as "antigas". A amigdalite é uma das mais conhecidas, lembrada especialmente pela população de idade mais avançada, que provavelmente temia a extração das amígdalas, tratamento mais comum para o problema há algumas décadas.
As amígdalas são dois órgãos que temos no fundo da garganta e que colaboram para a defesa do nosso organismo. De modo geral, sua função é evitar que agentes infecciosos se alojem onde possam causar danos. São especialmente ativas na infância e na pré-adolescência.
Porém, elas mesmas podem ser alvo de vírus, bactérias ou da ação combinada de ambos os micro-organismos. É quando se dá a amigdalite, caracterizada por sintomas como dor de garganta, febre, perda de apetite, dor no corpo, queda de ânimo, placas brancas e amarelas nas amígdalas, dificuldade de engolir, mau hálito, dor de cabeça e aumento dos linfonodos cervicais, que ficam na lateral do pescoço.
Isso não quer dizer que toda dor de garganta seja indício da enfermidade. "Cerca de 30% dos quadros de dor de garganta são por causas não infecciosas, podendo ter como origem alergias, refluxo gastroesofágico, esofágico, irritação provocada por fumaça de cigarro ou álcool, ressecamento da mucosa, frio e baixa umidade do ar, uso excessivo da voz e, mais raramente, tumores da laringe ou orofaringe", explica Andy Vicente, otorrinolaringologista do Hospital CEMA (SP).
O especialista também aponta que muitas pessoas confundem a amigdalite com outras doenças. Mais há diferenças. "Na gripe comum, o paciente geralmente apresenta uma rinofaringite ou uma faringoamigdalite, sem a presença de placas purulentas (pus) na amígdala. Além disso, apresenta hiperemia (vermelhidão) da amígdala e da mucosa faríngea", diz. Já na mononucleose o quadro é mais severo: a pessoa fica bastante debilitada, com febre alta, fadiga, inchaço nos gânglios linfáticos do pescoço e axilas. Até a pele pode ser afetada, apresentando erupções.

Infância vulnerável
As amígdalas são imunologicamente ativas entre os 4 e 10 anos de idade.
Como são mais requisitadas, ficam mais suscetíveis a serem infectadas. Por isso, as amigdalites são mais comuns entre crianças e pré-adoIescentes. Picos de ocorrência se dão nas faixas entre 5 e 7 anos e entre 12 e 13 anos. Passada essa fase, a incidência é significativamente menor, mas em qualquer idade a doença pode se manifestar. Os protocolos de tratamento tendem a ser os mesmos para todas as faixas etárias.

Tratando a garganta
Há diferenças entre  amigdalite viral e a bacteriana. O primeiro tipo tende a ser mais brando e pode retroceder sozinho. O segundo requer maior atenção. "O tratamento das infecções virais não é específico e consiste em terapias de suporte, com medicações analgésicas e anti-inflamatórios. Já nas amigdalites bacterianas é adotado o tratamento com antibióticos derivados da penicilina por dez dias", explica Andy Vicente.
Nos tempos estressantes em que vivemos, também vale atentar para a relação entre nosso bem­estar mental e nosso sistema de defesa como um "facilitador" da doença. "Quadros de ansiedade, depressão ou outros de fundo psicológico podem levar a uma baixa imunidade. Isso deixa a pessoa mais suscetível a infecções, tanto virais como bacterianas", aponta o especialista em otorrinolaringologia Alberto Starzewski Júnior, professor de Medicina da Universidade Anhembi Morumbi.
De modo geral, um clínico médico ou médico da família consegue identificar o problema, e só há encaminhamento para um especialista, no caso otorrinolaringologista, se houver piora dos sintomas. "O que temos muitas vezes é um aumento de diagnósticos referindo à amigdalite como bacteriana quando na verdade é viral. Nesse caso. há uma prescrição desnecessária de antibióticos, o que pode acabar levando a uma resistência bacteriana", explica o professor.
O acompanhamento médico é essencial. Quando não são devidamente tratadas, as amigdalites podem levar a complicações clínicas, como abscesso periamigdaliano (um acúmulo de pus atrás das amígdalas) ou parafaríngeo, infecções do espaço retrofaríngeo, escarlatina e febre reumática.

Precisa operar?
Sempre que uma pessoa tem amigdalites frequentes, é preciso investigar a causa, que pode ser otorrinolaringológica ou sistêmica (deficiência de vitaminas, baixa imunidade, quadros de alergia, entre outros). Seja como for, quando o problema crônico não é resolvido com o uso de medicações, a cirurgia passa a ser considerada.
Há algumas décadas a amigdalectomia (retirada das amígdalas) era o tratamento mais comum, "O número de cirurgias caiu após a década de 1970, quando se desenvolveram melhores antibióticos e se criaram critérios mais racionais para realização da cirurgia", diz Andy Vicente. Mas ela ainda é muito realizada. 
São duas as indicações mais comuns para a cirurgia. A primeira é justamente quando acontecem as infecções de repetição, que são as amigdalites constantes. A outra é quando ocorre a hipertrofia (aumento) das amígdalas. "Essa condição traz várias complicações: diminui o espaço na via aérea superior prejudicando a respiração e aumentando a incidência de roncos. Também podem ocorrer distúrbios de deglutição e de fonação (fala)", diz Starzewski Júnior. Outras indicações possíveis, mas menos frequentes, são as evoluções para abscesso periamigdaliano, profilaxia para febre reumática, suspeita de malignidade e repetidas hemorragias locais. O paciente geralmente tem alta no mesmo dia, e eventuais efeitos colaterais (como dor nos ouvidos e no maxilar) tendem a ser temporários.

Dá pra tratar em casa?
"Um gargarejo pode aliviar os sintomas, mas não vai curar a doença", diz o otorrinolaringologista Starzewski Júnior. O especialista explica que as amigdalites de origem viral tendem a se comportar como outras doenças causadas por vírus: há um ciclo da enfermidade que chega ao ápice e depois começa a perder força. Para essas, gargarejos e alimentos de propriedade anti-inflamatória, como o gengibre, podem oferecer algum alívio. Já as bacterianas sempre requerem o uso de antibiótico. Porém, a recomendação é não confiar em soluções "domésticas", já que o atraso na instituição de terapia medicamentosa adequada eleva as chances de evolução do quadro. Se perceber o avanço dos sintomas, procure um clínico médico, médico da família ou otorrinolaringologista.

Data de Publicação : 13/10/2020